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sexta-feira, 6 de março de 2015

Para entender a decapitação de 21 cristãos pelo ISIS na Líbia

Conhecer... Gustavo Chacra* 18 fevereiro 2015 | 20:42 A organização terrorista ISIS, também conhecida como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, decapitou 21 cristãos coptas egípcios na Líbia. Eles foram mortos quando estavam no país a trabalho. Abaixo, algumas perguntas e respostas para entender o ataque – parte das informações se baseiam em recente post no qual comentei sobre o avanço do ISIS na Líbia (falei do tema também no Globo News Em Pauta em novembro). Desde quando há ISIS na Líbia? O grupo tem crescido nos últimos meses no país, dominando porções do território líbio ou atuando em coordenação com algumas das várias milícias extremistas com base no país e armadas pelo Ocidente para combater o regime de Muamar Kadafi. Desde outubro, dominam a cidade de Darna. O governo da Líbia não fez nada? Hoje a Líbia tem dois governos. Ambos simbólicos. O que é reconhecido pelo Ocidente se localiza em Tobruq, uma cidade próxima ao Egito e a cerca de mil quilômetros de Trípoli, a capital. Isto é, o governo e o Parlamento da Líbia que desfrutam de legitimidade internacional não controlam a capital e nem a segunda cidade, Benghasi. Estas estão nas mãos de diferentes grupos extremistas islâmicos que combatem as tropas laicas do general Haftar e outras milícias. Não há Exército na Líbia? A OTAN destruiu as Forças Armadas da Líbia quando fez a intervenção para derrotar Kadafi. Não há um Exército que controle todo o país. O que existe são federações de milícias, sendo muitas delas ligadas à Al Qaeda e armadas no passado pelo Ocidente (isso mesmo). No último mês, militantes líbios integrantes do ISIS passaram a dominar a cidade de Darna. E o governo do Egito? O regime de Sissi tentou, sem sucesso, negociar a libertação Os EUA poderiam ajudar? Os EUA, hoje, não possuem diplomatas na Líbia. O embaixador foi morto em atentado terrorista. Os demais foram retirados posteriormente quando o governo perdeu o controle da capital, Trípoli. Os americanos tampouco exercem qualquer influência na área de segurança. Embora sejam os responsáveis diretos pela derrubada de Kadafi, os EUA perderam completamente o controle da Líbia e hoje enfrentam inimigos bem piores do que o então ditador – que havia abdicado do terrorismo e das suas armas de destruição em massa, sendo doador de campanha para políticos franceses, italianos e britânicos. A Líbia está em Guerra civil? Sim, está. A intervenção da OTAN comandada pelos EUA e pela França, com a ajuda de alguns países árabes, levou à queda do regime de Muamar Kadafi e à pulverização do país. Não existe, na prática, um Estado líbio. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas em um conflito esquecido pelo Ocidente – que foi um dos principais causadores, no caso, diferentemente do que ocorre na Síria O ISIS está se expandindo para outros países? Sim, embora venha perdendo um pouco de força no Iraque e na Síria, o ISIS tem ganho força na Líbia e no Afeganistão, além de ter células em outros países. Embora tenha tentado, não conseguiu, ainda, penetrar no Líbano, onde enfrenta o Hezbollah e o Exército, e na Jordânia. Alguma força externa luta contra o ISIS na Líbia? Não. O grupo enfrenta apenas alguma resistência local. Quem são os principais grupos e países na luta contra o ISIS no mundo? Quem mais luta contra o ISIS no mundo é uma coalizão liderada pelo Irã, com o apoio do regime de Bashar al Assad na Síria, do Hezbollah e de milícias xiitas iraquianas, em coordenação com o governo do Iraque os guerreiros Pesh Merga do Curdistão. A outra coalizão, mais focada em ataques aéreos do que terrestres, tem o comando dos EUA, com o apoio de nações ocidentais como a França e árabes como a Jordânia e a Arábia Saudita. Também atuam, em coordenação com o governo do Iraque, os Pesh Merga do Curdistão. O mundo islâmico não faz nada para combater o ISIS? Como escrito acima, o Irã, Hezbollah, Iraque, curdos, Jordânia e Arábia Saudita são muçulmanos e estão na vanguarda da luta contra o ISIS, ao lado de Assad, que tem um regime laico apoiado por cristãos, muçulmanos alauítas e muçulmanos sunitas seculares e druzos, e das Forças Armadas do Líbano, comandada por um cristão e com membros cristãos, sunitas, xiitas e druzos. Dezenas de milhares de muçulmanos lutam contra o ISIS todos os dias na Síria e no Iraque e milhares são mortos. Quem são os cristãos coptas? São os cristãos egípcios e representam 10% da população do país. Diferentemente dos cristãos libaneses, na maioria Maronitas ou Católicos, que comandam a política do Líbano, e dos cristãos sírios Ortodoxos, que são elite em Damasco, os cristãos Coptas do Egito historicamente sempre compuseram as camadas mais pobres da sociedade. Os cristãos são perseguidos em todo o mundo árabe? Não é em todo o mundo árabe que há cristãos. No Líbano, os cristãos são cerca de 40% da população do país e detêm os cargos de presidente, chefe das Forças Armadas e metade do Parlamento. Na Síria, onde são 10% do total, os sírios sempre foram bem integrados, formando parte da elite, e costumam o apoiar o regime de Bashar al Assad, que os protege. São perseguidos apenas nas áreas sob controle da oposição, hoje comandada pelo ISIS e pela Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria). Até recentemente, o chefe das Forças Armadas da Síria era cristão e muitos generais de Assad são cristãos. Na Jordânia, vivem bem, sem perseguição. Na Palestina, sempre estiveram na vanguarda da luta contra Israel e pela independência palestina. Hoje vivem bem na Cisjordânia – a prefeita de Ramallah, sede da Autoridade Palestina, e a de Belém, são cristãos. Em Gaza, enfrentam problemas com o Hamas. No Iraque, viviam bem na época de Saddam Hussein, quando tinham o vice-presidente, Tariq Aziz. Mas o cenário piorou com a invasão americana e centenas de milhares fugiram para a Síria, onde foram recebidos por Assad, que lhes concedeu todos os direitos. Hoje os cristãos iraquianos são perseguidos pelo ISIS nas áreas controladas pelo grupo. *Guga Chacra, é comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York. É mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires.

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