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terça-feira, 22 de abril de 2014

A FALÁCIA EM TORNO DE AMAR

Autoria de: © Darlyson Feitosa – Brasília/DF 2007. Falácia é o raciocínio lógico, muitas vezes contundente – mas falso, que simula a veracidade: parece ser verdade, mas não expressa de fato a verdade. Geralmente a falácia é tratada como paralogismo ou sofisma, isto é, uma declaração com contornos adequados, mas de núcleo falso, duvidoso e, portanto, condenável. A teologia não é livre das falácias – ao contrário, no meio teológico há ambiente favorável ao aparecimento e propagação de muitas falácias, como: a idéia de um kairós de Deus e um chrónos humano; a concepção no meio evangélico de que a eucharistía e a chrisma são práticas exclusivas dos católicos; a falácia do fundo de uma agulha de Mc 10,25 ser uma porta estreita no muro da cidade. O presente texto trata de uma falácia popularizada inicialmente nos Estados Unidos, encontrando em nosso meio igual ou maior afeição, que á a idéia de sentidos teológicos distin¬tos entre os verbos filéo e agapáo. A falácia se encontra na afirmação que agapáo é o amor genuíno, o amor de Deus, e filéo é o amor fraternal, o gostar de. No mero exame da terminologia neotestamentária constata-se, porém, que os dois verbos são sinônimos, e são usados indistintamente. O uso de filéo ratifica o ar¬gumento (grifo nosso): i. o` ga.r path.r filei/ to.n ui`o.n (o Pai ama o Filho - Jo 5,20, refe¬rindo-se ao amor de Deus por Jesus). Se houvesse distinção entre os verbos, esperaríamos aqui que o verbo fosse agapáo. A idéia de Deus gostar muito de Jesus requereria um esforço argumentativo, a meu ver, inoperante. ii. Ku,rie( i;de o]n filei/j avsqenei/ (Senhor, aquele que tu amas está do¬ente - Jo 11,3, referindo-se ao amor de Jesus por Lázaro). Mais adiante (Jo 11,35.36) João escreverá que Jesus chorou próximo ao sepulcro de Lázaro e que, por isso, os judeus ali presentes ficaram admirados (um rabi chorando em público!) e disseram “vede quanto o amava”, onde filéo também é usado. O contexto de ambas declarações indica genuíno amor, não mero sentimento de afeição. Ou seja, se a falácia não fosse falácia, esperaríamos agapáo para o sentimento de Jesus, não filéo. iii. auvto.j ga.r o` path.r filei/ u`ma/j (pois o próprio Pai vos ama - Jo 16,27, referindo-se ao amor de Deus pelos discípulos). À semelhança do amor do Pai pelo Filho, o amor de Deus pelos discípulos é expressado com filéo. iv. ei; tij ouv filei/ to.n Ku,rion h;tw avna,qema (se alguém não ama o Se¬nhor, seja anátema - 1Cor 16,22, referindo-se ao amor que o homem deve ter pelo Senhor). Ora, em virtude da importância que Paulo dá àquilo que os coríntios deveriam sentir pelo Senhor, seria natural que ele se expressasse com agapáo ao invés de filéo, se agapáo fosse de fato mais intenso, mais genuíno, mais forte. No entanto, o que temos nessa declaração tão contundente é o uso de filéo, com uma ameaça de maldição em caso de não cumprimento. v. evgw. o[souj eva.n filw/( evle,gcw kai. paideu,w (quanto a mim, repreendo e cor¬rijo todos aqueles a quem amo - Ap 3,19, referindo-se ao amor de Deus pelos seus). O amor de Deus por Jesus, pelos discípulos e pelos seus filhos em geral é grafado com filéo. Se filéo fosse inferior a agapáo, dificilmente seria o verbo usado nesses textos. Um diálogo frequentemente usado em pregações e estudos bíblicos que, possivelmente, foi o que popularizou a falácia da distinção entre filéo e agapáo, é o texto de Jo 21,15-17, onde Jesus e Pedro dialogam. Por três vezes Jesus pergunta para Pedro “amas-me...?”, usando nas duas primeiras vezes agapáo, e na terceira vez filéo. As três respostas de Pedro são sempre com filéo. Os defensores da distinção entre os vocábulos argumentam basicamente no fato de Pedro, envergonhado, não ter tido a coragem de afirmar categoricamente diante de Jesus que o amava verdadeiramente (agapáo), só podendo se expressar através de filéo. Algumas considerações sobre isso: 1ª. Possivelmente o diálogo foi realizado em aramaico, o idioma da intimidade judaica, muito propício para aquele momento entre Jesus e Pedro, primeiro encontro entre os dois depois da tríplice negação de Pedro. E, se admitirmos, pelo menos como hipótese, tal diálogo entre os dois em aramaico, o vocábulo que teria sido usado só poderia ser o tradicional 'âhabhtâ, usado indistintamente para o amor a Deus, o amor de Deus e o amor entre os seres humanos (inclusive o amor conjugal). 2ª. Na hipótese de um diálogo em grego, é necessário então, antes de se constatar o uso de agapáo e filéo, duas indicações textuais importantes: (a) Nas duas primeiras respostas, Pedro diz: “sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Não caberia a resposta “sim” com a modificação de sentido nos vocábulos, algo como “sim, tu sabes que eu gosto muito de ti”. Para isso fazer sentido, Pedro teria que responder “não, Senhor, eu não te amo [o suficiente], eu apenas gosto muito de ti”. Visto que Pedro responde “sim”, então a mudança de vocábulos (agapáo na pergunta e filéo na resposta) só pode ser entendida como sinônimos; (b) João faz um comentário editorial em 21,17 bem sugestivo: “Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas?” O verbo usado nessa nota editorial é filéo. Ora, sabemos já que Jesus não usou filéo pela terceira vez – na verdade ele usou filéo apenas na terceira pergunta. Caso houvesse distinção entre os vocábulos, esperaríamos que João mantivesse a distinção e escrevesse algo como “Pedro se entristeceu por ele ter mudado de amar para gostar” ou “Pedro se entristeceu por não ter conseguido responder que amava Jesus, mas apenas gostava dele”, ou, mais triste, “Pedro se entristeceu por Jesus não ter mais esperado que ele o amasse e ter apelado para a simpatia de Pedro”. Ainda argumentando tendo filéo como base, outras narrativas do NT ratificam a indistinção dos dois verbos: (1) Em Mt 10,37 Jesus espera dos seus pretensos seguidores um amor maior, mais exclusivo do que o amor dispensado aos pais. As duas ocorrências do particípio grego são com filéo; (2) Há no cristianismo uma forte tradição em cima do misterioso discípulo amado, que aparece em Jo 20,2. A expressão “o outro discípulo, a quem Jesus amava” é grafada com filéo. O argumento tendo agapáo como base é igualmente ilustrativo – não há um quê de divino no vocábulo: (1) o amor ao próximo pode ser evidenciado com agapáo (Mt 5,43) – amor aos inimigos também (Mt 5,44)!; (2) o amor dos seres humanos às coisas más (trevas) é grafado com agapáo (Jo 3,19); (3) Demas amou [agapáo] o presente século (1Tm 4,10); (4) Balaão amou [agapáo] o prêmio da injustiça (2Pd 2,15). Ou seja, agapáo pode ser usado não apenas sob o ponto de vista da virtude, mas do pecado. Diante desta e de outras falácias, importa que os vocábulos gregos sejam analisados e comparados. Ainda que um determinado texto seja atrativo sob determinado ponto de vista (geralmente o ponto de vista que nós queremos provar como verdadeiro), é necessário colocá-lo sob o crivo das demais declarações que utilizam o mesmo termo. Fazendo assim evitaremos distorções. Há, de fato, uma evidente distinção entre filéo e agapáo: é quando filéo possui o sentido de beijar (Mt 26,48; Mc 14,44; Lc 22,47). Mas esse beijo de Judas já é outra história.

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