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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Cristo em Spinoza?

Trecho de entrevista do filósofo francês Laurent Bove em entrevista por e-mail à IHU On-Line."(...)IHU On-Line – Quais são os aspectos dos escritos de Spinoza que oferecem elementos para uma compreensão do ensinamento de Cristo a partir de uma perspectiva política, materialista e revolucionária? Laurent Bove – Mostrei em vários artigos – um deles foi publicado no Brasil, na Revista Conatus, Filosofia de Spinoza, intitulado “Cristo e o Império” (Fortaleza, Ceará, 2011) – que, na obra de Spinoza, encontramos uma possibilidade de leitura do ensinamento de Cristo na perspectiva de uma Teologia da Libertação1. Ante a decadência e a dissolução do Estado judaico, que vai favorecer (e acelerar) a invasão das tropas romanas, Spinoza mostra, com efeito, que duas atitudes religiosas e políticas pareciam então possíveis: ou recusar essa dissolução, percebida como um processo negativo e, por conseguinte, desejar uma reterritorialização dos antigos valores, ou então afirmar estrategicamente essa dissolução para fazer dela um meio de transvaloração de todos os antigos valores: este segundo caminho, segundo Spinoza, será o escolhido por Cristo. Recusar a dissolução significava não fazer um pacto com o inimigo, uma vez que isso é um pecado. Tratava-se então de defender a qualquer preço a ordem simbólica judaica centrada no Templo de Jerusalém. Os zelotes (Spinoza não os designa explicitamente, mas é justamente ao irresistível fanatismo destes na defesa de Jerusalém que ele se refere – via Tácito), fariseus por sua ideologia religiosa, defenderam o Templo, centro vital do campo simbólico judaico, com obstinação durante toda a guerra, principalmente em seu último episódio (contra Tito), quando todos morreram. O Templo foi totalmente destruído e, com ele, o Estado de Israel. Segundo Spinoza, Cristo havia previsto este desaparecimento definitivo (de 70). Cerca de cinquenta anos antes desse colapso definitivo do Estado hebreu, Cristo ensina uma segunda atitude (religiosa “e” política) ante a dissolução da ordem simbólica judaica e a invasão romana. Em seu aspecto universal, o ensinamento de Cristo, fazendo a distinção entre a função necessária e vital da lei a que se deve obedecer e o seu conteúdo circunstancial discutível, revela a natureza paradoxal da relação simbólica. Cristo faz essa distinção de maneira explícita demarcando o seu ensinamento, essencialmente ético, fora de toda e qualquer cumplicidade política particular. Ele ensina que o sagrado é o laço social, a comunidade dos homens em si mesma, e não a lei deste ou daquele Estado particular, seja ele um Estado religioso. Através dessa demarcação, Cristo conserva o essencial da lei de Moisés, isto é, o espírito de fraternidade entre judeus que esse Estado ensinava. Mas a fraternidade passa a ser então ensinada a todos os homens sem exceção. Extraindo o espírito de fraternidade do seu contexto histórico e político particulares (a teocracia hebraica), Cristo separa, sem dúvida, o seu ensinamento de qualquer política particular e do nacionalismo judeu sobre o qual se apoia a resistência zelote, mas tal ensinamento, que constitui no amor pelo próximo o cimento mais forte de toda vida comum, permanece inseparável do ideal político de igualdade social, de fraternidade e de liberdade coletiva, o qual lhe deu origem e cuja promessa ele sempre carrega consigo. Potência dos corpos Na verdade, o que Cristo ensina, numa situação histórica que, segundo ele, não oferece saída política para o Estado hebreu, é um retorno aos princípios desse Estado. Ora, tal retorno envolve paradoxalmente não a salvação do Estado hebreu, mas o seu desaparecimento. No entanto, esse desaparecimento do Estado, na superação da sua particularidade teocrática ligada às suas origens bárbaras, se dá em proveito da realização universal dos princípios democráticos desse Estado, adaptados a homens já engajados no processo civilizatório. Pois, aqui, o “retorno aos princípios” é retorno aos próprios princípios da socialidade. Nessas condições, o espírito da abordagem “política” de Cristo tem algo maquiavélico. Diante da mutação radical imposta pela fortuna romana, trata-se, por certo, de abandonar provisoriamente o lugar fixo do poder, mas isso é para suscitar a resistência/a insurreição da força da vida para a apropriação de um tempo e de um espaço históricos coletivos fora das relações de dominação. Ao contrário da ilusão zelote, o retorno aos princípios não pode ser então uma reterritorialização nacionalista, podendo ser apenas, inversamente, uma universalização ou uma internacionalização dos princípios democráticos que orientaram a criação desse Estado e, aliás, de qualquer Estado. Cristo, com efeito, substituindo o templo, tornou-se o produtor do novo espaço do Filho do homem coletivo, fora das relações de dominação. Pois o que é projetado são a extensão e a expansão ilimitadas da força do corpo social para fora do fetichismo dos códigos supersticiosos e das lógicas de poder: é a ressurreição coletiva dos corpos. Cristo, diz Spinoza, “tira seus discípulos do meio dos mortos desde que eles sigam o seu exemplo”, ou seja, desde que adotem essa prática poderosa de justiça e de caridade constitutiva de fraternidade, de igualdade e de prazer de viver em conjunto, que é a própria dinâmica da sua ressurreição. Isso significa que a benção dos corpos, em parte já libertados do fascínio do dinheiro e das honras, libertados da superstição da Lei e do medo da morte, é imediata e material: é “a posse da eternidade”, o próprio gozo da liberdade coletiva no amor pelo próximo. O que Cristo ensina é justamente uma prática da potência dos corpos, da insurreição coletiva da vida contra as lógicas mortíferas da dominação. Cristo (a potência da palavra que se fez “carne”) é, pois, o novo Templo, o novo centro simbólico, a nova lei que, transgredindo todas as fronteiras, ensina essa fraternidade universal que os hebreus, acreditando-se os únicos eleitos de Deus, tinham zelosamente reservado para si mesmos. O novo centro, portanto, está por toda parte e em lugar nenhum de maneira privilegiada, mas somente onde reina efetivamente “o espírito de Cristo”, ou seja, onde estão as práticas poderosas de Justiça e de Caridade e onde se pode dizer o que João disse a Cristo, onde “o Verbo se fez carne” – em outras palavras, práticas comuns de libertação. Essa é uma leitura possível da lição de Spinoza a respeito de Cristo."

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