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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Carta a um leitor cético

Carta a um Leitor Cético (Final) Pastoral Meu caro Tomé, note que, assim como Lucas, outros escritores do Novo Testamento expõem narrativas com coloração histórica que em nada se relacionam com a linguagem mítica das fábulas antigas. Há uma passagem escrita por João que é uma das minhas favoritas e que narra o que aconteceu quando Pedro e João chegaram ao sepulcro de Cristo no domingo pela manhã e o acharam vazio. Veja: “Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou. Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis, e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte. Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu” (João 20.4-8). Tomé, você consegue ver a riqueza de detalhes aqui? Seja sincero: a linguagem dessa narrativa parece um conto de fadas e de duendes? Não fica evidente que se trata de um relato preciso de fatos? Pense bem: se alguém quisesse inventar aqui um deus mítico que vence a morte e sai triunfante do túmulo, à moda dos deuses do Olimpo, será que o tal escritor descreveria as coisas desse modo? Considere o detalhe sobre o lenço que estava dobrado num canto. Será que o criador de um herói mitológico colocaria esse herói separando lencinhos logo depois de vencer a morte? Ora, por favor! É claro que não! O que temos aqui é um relato vivo, rico em detalhes surpreendentes que jamais poderiam advir da cabeça de alguém que pretende contar histórias do tipo do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu tenho mais um texto para lhe mostrar. Seja paciente comigo e use a sua razão. Não peço que acredite em fadas. Peço somente que avalie as palavras de homens sérios do passado (os escritores do Novo Testamento), que não tinham a intenção de enganar ninguém. Antes foram os responsáveis pela criação do maior sistema ético que a humanidade já viu. É no que dizem esses homens que os cristãos acreditam e não nas fábulas de Esopo. Assim, veja agora o que Pedro diz. Ele não escreveu nenhum evangelho. Talvez tenha supervisionado a produção do Evangelho de Marcos, mas não o escreveu diretamente. Pedro é o autor de duas cartas que estão na Bíblia. Numa delas ele fala da transfiguração de Jesus, um episódio sobrenatural narrado nos evangelhos (Mateus 17.1-8) e de que ele foi testemunha ocular. Veja o que ele diz a respeito do que viu (grifei algumas partes): “Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela glória excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: ‘Este é o meu Filho amado em quem me comprazo’. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2Pedro 1.16-18). É em testemunhos assim que os cristãos acreditam, Tomé, pois vemos seriedade, firmeza e coerência em afirmações como essa que citei acima. Você, então, dirá: “Mas como podemos ter certeza de que eles não inventaram tudo? Como podemos saber se eles não criaram toda essa história para obter fama, poder, dinheiro ou mesmo para conquistar mulheres?”. Essa pergunta realmente faz sentido e a resposta é simples: os apóstolos nunca tiveram nenhuma vantagem ao afirmar o que afirmaram. Muito pelo contrário! Eles só se deram mal ao divulgar as histórias que proclamaram. Com efeito, eles perderam amizades, perderam suas famílias, perderam o sossego e perderam seus bens saindo pelo mundo, dizendo o que viram. No fim, eles perderam a própria vida. Paulo, um desses homens, escreveu o seguinte sobre isso: “Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens... Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas; estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo” (1Coríntios 4.9,11-13). Menos de um ano depois, ele escreveu à mesma igreja de Corinto, na Grécia, falando especificamente de sua experiência pessoal: “... trabalhei muito mais, fui encarcerado mais vezes, fui açoitado mais severamente e exposto à morte repetidas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove açoites. Três vezes fui golpeado com varas, uma vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra, enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos dos meus compatriotas, perigos dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, e perigos dos falsos irmãos. Trabalhei arduamente; muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez...” (2Coríntios 11.23-27). Seja honesto, Tomé. Será que alguém pagaria esse preço por uma fábula que sabia ter inventado? Será que Monteiro Lobato se disporia a enfrentar toda a oposição do mundo para defender a existência da Emília? Será que ele se deixaria degolar, ser crucificado ou queimado vivo por sua história sobre o Visconde de Sabugosa? Se tudo fosse mito, os apóstolos confessariam isso depressa, tão logo levassem as primeiras chicotadas ou tão logo passassem uma noite numa “confortável” prisão subterrânea romana. Eles, no entanto, não se deixaram intimidar por nada. Reis e juízes poderosos tentaram fazê-los calar, açoitaram-nos, prenderam-nos, ameaçaram-nos, passaram-nos ao fio da espada. Nada, porém, os fazia voltar atrás. Eles saíram pelo mundo por anos a fio enfrentando tempestades, dormindo ao relento, empreendendo longas e perigosas jornadas, levando pedradas e chicotadas, tudo com o objetivo de anunciar o que viram e ouviram — coisas que você, Tomé, chamou de fábulas. No final, morreram em meio a terríveis misérias e opressões, condenados pelo crime de afirmar que o que viram e ouviram era real. Somente um entre eles — João — não foi martirizado. A pena dele foi o exílio numa pequena ilha chamada Patmos. Assim, Tomé, o que nós cristãos acolhemos não são um conjunto de historinhas do Olimpo, de Nárnia, de Camelot ou da Disney. Tampouco nos dobramos diante de filósofos zombeteiros e vazios como Nietzsche que, confortáveis em suas casas, diante do fogo da lareira, zombaram daqueles que tentaram mostrar com amor a verdade aos homens e que, por isso, também conheceram o fogo, mas o da pira e não o da lareira. Nós cremos, isto sim, em testemunhas oculares que se deixaram degolar antes de negar o que disseram. Espero que você, com seriedade e sem preconceitos, considere essas coisas e enxergue, assim, a razoabilidade da fé cristã. Escreva quando quiser... Que Deus o abençoe. Abraços, Pr. Marcos Granconato Soli Deo gloria

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